O cinema nunca foi apenas entretenimento. Em diferentes momentos da história, ele funcionou como instrumento de memória, crítica política e projeção internacional de identidades nacionais. No caso brasileiro, as indicações ao Oscar representam mais do que reconhecimento artístico: são também sinais de como o país é percebido, narrado e disputado simbolicamente no sistema internacional.
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Premiações internacionais, como o Oscar, operam como mecanismos de soft power. Elas legitimam narrativas, ampliam audiências e inserem determinados temas no debate público internacional. Quando filmes brasileiros chegam a esse espaço, eles carregam consigo histórias sobre autoritarismo, desigualdade, democracia, violência e humanidade, ou seja, temas centrais não apenas para o Brasil, mas para a política contemporânea.
Confira 8 produções indicadas ao Oscar:
Ainda Estou Aqui (2024)
Direção: Walter Salles
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Fernanda Torres) (2025)
Ambientado durante a ditadura militar brasileira, Ainda Estou Aqui acompanha a trajetória de Eunice Paiva após o desaparecimento forçado de seu marido, o deputado Rubens Paiva. O filme se insere no campo do cinema político e da memória histórica, abordando o autoritarismo de Estado, o silêncio institucional e o impacto da repressão sobre a vida privada.
Do ponto de vista das Relações Internacionais, a obra dialoga com debates sobre justiça de transição, direitos humanos e responsabilidade estatal, temas recorrentes em tribunais internacionais e organismos multilaterais. A narrativa íntima reforça como regimes autoritários produzem efeitos duradouros, muito além do momento do conflito.
O Agente Secreto (2025)
Direção: Kleber Mendonça Filho
Situado em 1977, também durante a ditadura, o filme acompanha um personagem que tenta reconstruir a vida enquanto carrega um passado marcado pela violência e pela clandestinidade. A obra trabalha com a estética do suspense político para explorar vigilância, medo e desconfiança, elementos centrais dos regimes de exceção.
Aqui, o cinema se aproxima da análise política ao mostrar como a lógica da segurança nacional e da repressão molda subjetividades. O filme dialoga com discussões clássicas das RI sobre Estado, coerção, inteligência e controle social, aproximando o espectador da experiência concreta do autoritarismo.
Democracia em Vertigem (2019)
Direção: Petra Costa
Indicado ao Oscar de Melhor Documentário (2020)
O documentário analisa a crise política brasileira recente, do impeachment de Dilma Rousseff à prisão de Lula e à ascensão de forças conservadoras. A narrativa combina memória pessoal e análise estrutural para refletir sobre a fragilidade das instituições democráticas.
No plano internacional, Democracia em Vertigem teve forte repercussão por expor tensões que não são exclusivas do Brasil, mas atravessam democracias em diferentes regiões do mundo. O filme contribui para debates sobre erosão democrática, polarização e populismo, temas centrais da agenda contemporânea de ciência política e Relações Internacionais.
Cidade de Deus (2002)
Direção: Fernando Meirelles e Kátia Lund
- Indicado ao Oscar em quatro categorias (2004)
- Melhor Direção
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Fotografia
- Melhor Montagem
- Selecionado para diversos festivais internacionais
- Considerado um dos filmes mais influentes do cinema mundial no século XXI
Indicado ao Oscar em múltiplas categorias, Cidade de Deus retrata o crescimento do crime organizado em uma favela do Rio de Janeiro entre as décadas de 1960 e 1980. O filme articula violência, desigualdade e ausência do Estado de forma crua e impactante.
Internacionalmente, a obra ajudou a consolidar uma imagem do Brasil marcada por contrastes extremos, ao mesmo tempo em que levantou debates sobre marginalização, economia ilegal e governança urbana. Para as RI, o filme dialoga com estudos sobre violência estrutural, Estados frágeis e periferias do capitalismo global.
Central do Brasil (1998)
Direção: Walter Salles
- Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (1999)
- Indicação ao Oscar de Melhor Atriz (Fernanda Montenegro)
- Urso de Ouro de Melhor Filme – Festival de Berlim
- Urso de Prata de Melhor Atriz – Festival de Berlim
A jornada de Dora e Josué pelo interior do Brasil constrói uma narrativa profundamente humana sobre perda, afeto e pertencimento. Diferente de outras obras da lista, Central do Brasil aposta menos no conflito explícito e mais na dimensão social e afetiva do país.
No cenário internacional, o filme projetou uma imagem sensível e complexa do Brasil, reforçando o papel do cinema como ferramenta de diplomacia cultural. Ele mostra como histórias locais, quando bem contadas, podem gerar identificação universal e ampliar o capital simbólico de um país.
O Que É Isso, Companheiro? (1997)
Direção: Bruno Barreto
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (1998)
Ambientado no final da década de 1960, o filme reconstrói o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil durante a ditadura militar. A narrativa acompanha jovens militantes envolvidos na ação, seus dilemas, medos e contradições, ao mesmo tempo em que mostra a tensão crescente entre repressão estatal e resistência política.
A força do filme está menos no ato em si e mais no clima de época: a sensação de urgência, o peso das decisões irreversíveis e a brutalidade silenciosa do regime. O embaixador surge como figura humana, e não apenas como símbolo, o que dá à história um tom mais complexo e menos maniqueísta.
É um retrato direto e incômodo de um período em que a política atravessava a vida cotidiana, colocando indivíduos comuns diante de escolhas extremas.
O Quatrilho (1995)
Direção: Fábio Barreto
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (1996)
Situado no início do século XX, o filme acompanha duas famílias de imigrantes italianos no sul do Brasil, presas a tradições rígidas, costumes importados e expectativas sociais muito bem definidas. A narrativa se constrói a partir de um rompimento moral que desafia essas normas e reorganiza completamente as relações entre os personagens.
Mais do que um drama romântico, O Quatrilho é um filme sobre adaptação e pertencimento. Ele mostra como a vida em um novo país exige renegociar valores, afetos e papéis sociais, especialmente em comunidades pequenas e fechadas.
Com uma narrativa contida e sensível, o filme revela os conflitos silenciosos da imigração, onde o choque cultural não aparece em grandes confrontos, mas nas escolhas íntimas e nas rupturas familiares.
O Pagador de Promessas (1962)
Direção: Anselmo Duarte
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (1963)
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes
O filme acompanha Zé do Burro, um homem simples do interior da Bahia que faz uma promessa religiosa após seu jumento adoecer. Quando tenta cumprir o voto, é impedido pela própria Igreja, dando início a um conflito que cresce à medida que sua história se torna pública.
A narrativa avança de forma quase trágica, colocando em choque fé popular, autoridade religiosa e incompreensão social. Zé do Burro não é um rebelde nem um herói clássico; ele é apenas alguém tentando cumprir sua palavra em um sistema que não sabe lidar com simplicidade, ambiguidade e fé fora das regras.
Com enorme força simbólica, o filme constrói uma crítica profunda às instituições e à exclusão dos que não se encaixam. É uma obra atemporal, que fala de intolerância, poder e humanidade sem perder o vínculo com a cultura popular brasileira.
Cinema, política e projeção internacional
As indicações ao Oscar representam mais do que reconhecimento artístico. Elas sinalizam momentos em que histórias locais alcançam o mundo, quando experiências nacionais passam a dialogar com públicos globais. No cinema brasileiro, esse reconhecimento tem sido marcado por narrativas densas, sensíveis e corajosas, capazes de transformar memória, conflito e cotidiano em linguagem universal.
Os filmes brasileiros indicados à maior premiação do cinema internacional não seguem fórmulas fáceis. Eles revisitam períodos autoritários, expõem desigualdades persistentes, exploram dilemas morais e revelam afetos profundos. Ao fazê-lo, constroem retratos complexos do país, longe de idealizações, mas também distantes da caricatura. São obras que falam de dor, resistência, fé, esperança e transformação.
Celebrar essas indicações é também reconhecer a força do cinema nacional como espaço de reflexão e expressão política. Cada filme indicado carrega consigo uma visão de Brasil, uma forma de narrar sua história e de apresentar suas contradições ao mundo. Nesse sentido, o cinema se torna um meio privilegiado de projeção simbólica, capaz de atravessar fronteiras, sensibilizar audiências e gerar diálogo internacional.
Para quem estuda e atua nas Relações Internacionais, o cinema amplia o olhar. Ele ajuda a compreender como identidades nacionais são construídas, como traumas coletivos são elaborados e como valores, conflitos e narrativas circulam no sistema internacional. Muitas vezes, é na arte e não apenas nos discursos oficiais que a política se manifesta com mais clareza e profundidade.
Ao reunir essas produções, a ESRI reafirma a importância de olhar para o mundo também por meio da cultura. Prestigiar o cinema brasileiro é valorizar nossa capacidade de contar histórias que importam, aqui e além das fronteiras. É reconhecer que, quando o cinema nacional chega ao Oscar, não é apenas uma conquista artística: é um momento de afirmação cultural e de diálogo com o mundo.


