A chamada Armadilha de Tucídides tornou-se, ao longo da última década, um elemento recorrente nos comentários sobre política externa, sendo invocada regularmente para enquadrar a rivalidade crescente entre os Estados Unidos e a China.
O termo foi cunhado pelo cientista político Graham Allison — primeiro em um artigo publicado em 2012 no Financial Times e, posteriormente, desenvolvido em seu livro de 2017, Destined for War. A expressão remete a uma passagem do historiador grego antigo Tucídides, que escreveu em História da Guerra do Peloponeso: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso incutiu em Esparta que tornou a guerra inevitável”.
À primeira vista, trata-se de uma analogia convincente e convenientemente empacotada: potências emergentes provocam ansiedade nas potências estabelecidas, o que leva ao conflito. No contexto atual, a implicação parece clara — a ascensão da China estaria destinada a provocar um choque com os Estados Unidos, assim como Atenas fez com Esparta.
Mas esse enquadramento corre o risco de achatar a complexidade da obra de Tucídides e distorcer sua mensagem filosófica mais profunda. Tucídides não estava articulando uma lei determinista da geopolítica. Ele estava escrevendo uma tragédia.
A história se repete como tragédia?
Tucídides lutou na Guerra do Peloponeso do lado ateniense. Seu mundo era profundamente marcado pelas sensibilidades da tragédia grega, e sua narrativa histórica carrega essa marca ao longo de toda a obra. Seu trabalho não é um tratado sobre inevitabilidade estrutural, mas uma exploração de como a fragilidade humana, o erro de julgamento político e a degradação moral podem se combinar para desencadear a catástrofe.
Essa sensibilidade trágica é fundamental. Enquanto analistas modernos frequentemente buscam padrões preditivos e explicações em nível sistêmico, Tucídides chamava atenção para o papel da escolha, da percepção e da emoção. Sua história está repleta dos efeitos corrosivos do medo, das seduções da ambição, das falhas de liderança e do desmoronamento trágico do julgamento. Trata-se de um estudo sobre hýbris e nêmesis, não sobre determinismo estrutural.
Muito disso se perde quando a expressão “Armadilha de Tucídides” é elevada à condição de uma espécie de quase-lei da política internacional. Ela passa a funcionar como um atalho para a inevitabilidade: o poder cresce, o medo reage, a guerra se segue.
Mas o próprio Tucídides estava mais interessado em compreender por que o medo se instala, como a ambição distorce o julgamento e como líderes — presos em um corredor cada vez mais estreito de más opções — convencem a si mesmos de que a guerra é o único caminho viável que resta. Sua narrativa mostra como os conflitos frequentemente surgem não da necessidade, mas de leituras equivocadas, erros de cálculo e paixões desvinculadas da razão.
Até mesmo Allison, a seu crédito, jamais afirmou que a “armadilha” fosse inescapável. Seu argumento central sempre foi que a guerra é provável, mas não inevitável, quando uma potência emergente desafia uma potência dominante. De fato, grande parte de seus escritos funciona como um alerta para romper o padrão, e não para resignar-se a ele.
Nesse sentido, a “Armadilha de Tucídides” tem sido mal utilizada tanto por comentaristas quanto por formuladores de políticas. Alguns a tratam como confirmação de que a guerra está inscrita na própria estrutura das transições de poder — uma justificativa para ampliar orçamentos de defesa ou adotar uma postura agressiva em relação a Pequim — quando, na verdade, ela deveria estimular reflexão e contenção.
Ler Tucídides com atenção é perceber que a Guerra do Peloponeso não foi apenas sobre uma mudança no equilíbrio de poder. Foi também sobre orgulho, erro de julgamento e fracasso na arte de liderar com sabedoria.
Considere sua famosa observação: “A ignorância é ousada, e o conhecimento é cauteloso”. Isso não é uma percepção estrutural — é humana. Trata-se de uma crítica direta àqueles que confundem impulso com estratégia e arrogância com força.
Ou considere sua formulação perturbadora: “Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”. Isso não é uma defesa do realismo político. É um lamento trágico sobre o que acontece quando o poder se torna irresponsável e a justiça é abandonada.
As verdadeiras lições de Tucídides
Visto sob essa perspectiva, o verdadeiro ensinamento de Tucídides não é que a guerra seja predestinada, mas que ela se torna mais provável quando as nações permitem que o medo obscureça a razão, quando líderes confundem encenação com prudência e quando decisões estratégicas são guiadas pela insegurança, e não pela clareza.
Tucídides nos lembra de como a percepção facilmente se deteriora em distorção — e de quão perigoso é quando líderes, convencidos de sua própria virtude ou de uma suposta necessidade histórica, deixam de ouvir qualquer voz discordante.
No contexto atual, invocar a Armadilha de Tucídides como justificativa para a confrontação com a China pode causar mais danos do que benefícios. Isso reforça a noção de que o conflito já está em curso e não pode ser interrompido. Mas, se há uma lição em História da Guerra do Peloponeso, ela não é a de que a guerra é inevitável, e sim a de que ela se torna provável quando o espaço para a prudência e a reflexão colapsa sob o peso do medo e do orgulho.
Tucídides não oferece uma teoria das relações internacionais. Ele oferece um alerta — uma advertência a líderes que, aprisionados em suas próprias narrativas, conduzem suas nações rumo ao abismo.
Evitar esse destino exige melhor julgamento. E, acima de tudo, exige a humildade de reconhecer que o futuro não é determinado apenas por pressões estruturais, mas pelas escolhas que as pessoas fazem.
Este artigo, intitulado “The Thucydides Trap: Vital lessons from ancient Greece for China and the US … or a load of old claptrap?”, de autoria de Andrew Latham, Professor de Political Science no Macalester College, foi publicado originalmente em The Conversation. Está licenciado sob Creative Commons – Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-ND 4.0).


