Diplomacia Científica: Papel na Cooperação Internacional em 2024

Diplomacia Científica: Papel na Cooperação Internacional em 2024

A diplomacia científica representa uma evolução crítica nas relações internacionais, emergindo como uma ponte essencial entre a ciência e a política no cenário global contemporâneo. Este campo, que combina esforços científicos com estratégias diplomáticas, visa enfrentar desafios transnacionais complexos, desde mudanças climáticas até a segurança nuclear, demonstrando o potencial ilimitado da colaboração internacional fundamentada no conhecimento científico.

O conceito de diplomacia científica, embora tenha ganhado proeminência recentemente, tem raízes que remontam a séculos atrás. Louis Pasteur, com sua afirmação de que “a ciência não conhece país, porque o conhecimento pertence à humanidade”, captura a essência deste campo – a ciência como uma força unificadora além das fronteiras políticas e culturais. Desde as viagens de exploração de James Cook, que expandiram o conhecimento geográfico para fins políticos, até o Projeto Manhattan, que exemplifica o uso da ciência para alcançar objetivos políticos estratégicos, a ciência tem sido uma ferramenta de diplomacia.

Definição de Diplomacia Científica

A diplomacia científica, em suas várias definições, concentra-se em aplicar a expertise científica ao esforço internacional para resolver problemas globais. Esta abordagem não só busca soluções para desafios internacionais, mas também equilibra a prosperidade econômica, a proteção ambiental e o bem-estar social. A importância dessa disciplina tornou-se ainda mais evidente com a crescente interconexão global, que trouxe desafios complexos que exigem soluções colaborativas e baseadas em evidências.

Exemplos notáveis de diplomacia científica em ação incluem acordos internacionais como o Acordo de Paris sobre mudança climática e o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) – mais conhecido como o Acordo Nuclear Iraniano. Esses acordos demonstram como a colaboração científica internacional pode resultar em soluções concretas para desafios globais, unindo nações em torno de objetivos comuns.

A diplomacia científica enfrenta o desafio de operar em um mundo onde o egoísmo e o nacionalismo estão em ascensão. No entanto, a necessidade urgente de soluções globais para problemas transnacionais apresenta uma oportunidade sem precedentes para a ciência desempenhar um papel central nas relações internacionais. Fortalecer a colaboração científica internacional e integrar a ciência nas políticas diplomáticas não é apenas benéfico, mas essencial para o progresso humano e a sustentabilidade global.

A Diplomacia Científica na Resposta aos Desastres Naturais

Os desastres naturais servem como um lembrete contundente de que as fronteiras nacionais são, em muitos aspectos, uma construção social sem reconhecimento pelas forças da natureza. A maneira como esses eventos transcendem fronteiras geográficas ilustra vividamente a interconexão do mundo moderno e destaca a necessidade imperativa de uma colaboração internacional robusta, fundamentada na ciência e na tecnologia.

Desafios Globais sem Fronteiras

Em 2022, cerca de 32 milhões de pessoas foram deslocadas internamente por eventos climáticos extremos. Com as temperaturas globais atingindo novos recordes em 2023, o ano foi marcado por inúmeros incêndios, inundações e tempestades intensas em todo o mundo, ressaltando que a mudança climática é a crise definidora de nossa época. Os impactos são sentidos de maneira desproporcional por pessoas em situações vulneráveis, incluindo refugiados e deslocados internos​​.

A expectativa é que os eventos climáticos extremos, já responsáveis por induzir aproximadamente 23 milhões de deslocamentos de pessoas de suas casas anualmente, baseado na média de dados da última década, continuem a crescer em intensidade e frequência. Sem ações significativas para mitigar a mudança climática e reduzir o risco de desastres climáticos, até 2050, 200 milhões de pessoas poderão precisar de assistência humanitária anualmente devido aos efeitos da mudança climática​

​Este panorama reforça a urgência de buscar soluções baseadas na ciência, tecnologia e na colaboração internacional para mitigar os riscos de catástrofes totais. A colaboração transnacional e o investimento em inovação responsável são cruciais para enfrentar esses desafios, adaptar-se às mudanças e proteger as populações mais vulneráveis, incluindo refugiados e deslocados por desastres naturais.

Portanto, a relação entre a mudança climática e os deslocamentos forçados de pessoas sublinha a importância da diplomacia científica e da cooperação internacional em desenvolver e implementar estratégias eficazes para a gestão de desastres naturais e a mitigação da mudança climática, visando a segurança e o bem-estar de populações vulneráveis em todo o mundo.

Ciência Diplomática

Organizações como o Centro de Pesquisa Integrada sobre Risco de Desastres (IRDR, na sigla em inglês) exemplificam o papel crítico da diplomacia científica no enfrentamento desses desafios. Composto por dez comitês nacionais, o IRDR é uma rede de instituições de pesquisa patrocinadas pelo governo em países que abrangem uma ampla escala política e econômica. Estes grupos de trabalho se comprometeram a melhorar a ciência e a tecnologia de redução do risco de desastres, fornecendo orientação aos formuladores de políticas encarregados de implementar estratégias de prevenção e mitigação de desastres.

diplomacia científica

A governança do IRDR por um comitê de cientistas experientes e especialistas em desastres naturais, provenientes de todo o mundo é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de redução de riscos abrangentes. A partilha de dados e know how de países com diferentes áreas de especialização facilita uma previsão mais precisa de desastres naturais e melhores estratégias para mitigar seu poder destrutivo.

Essa abordagem internacionalizada, que ultrapassa barreiras políticas e econômicas, demonstra o poder da diplomacia científica em unir nações em torno de objetivos comuns para enfrentar desafios que não respeitam fronteiras. A diplomacia científica, portanto, emerge não apenas como uma ferramenta vital para a gestão de desastres, mas também como um meio essencial para fomentar a solidariedade global e a ação coletiva em resposta aos desafios interconectados do século XXI.

Estudos de Caso: CERN e sua Contribuição para a Diplomacia Científica

O CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), localizado na fronteira Franco-Suíça, é um dos maiores e mais prestigiados centros de pesquisa científica do mundo. Conhecido principalmente por seu acelerador de partículas, o Grande Colisor de Hádrons (LHC), o CERN desempenha um papel fundamental não apenas na física de partículas, mas também na diplomacia científica.

A Organização não se limita a ser um laboratório de pesquisa; ele é um modelo de cooperação internacional, reunindo cientistas de mais de 100 países. Suas contribuições vão além das descobertas científicas, abrangendo inovações tecnológicas com amplas aplicações, como a criação da World Wide Web. Além disso, o CERN serve como uma plataforma para promover o diálogo e a colaboração entre países, independentemente de suas diferenças políticas e econômicas.

O CERN exemplifica como a ciência pode ser uma linguagem universal para a cooperação internacional. Ele oferece um espaço neutro onde cientistas e pesquisadores podem se concentrar em objetivos comuns, promovendo a paz e o entendimento mútuo através do compartilhamento de conhecimento e recursos.

Brasil e o CERN

Acordo com o CNPEM: Em 4 de dezembro de 2020, o CERN fortaleceu sua colaboração com o Brasil por meio de um acordo com o Centro Brasileiro de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM). Este acordo estabelece um quadro para colaboração em pesquisa e desenvolvimento em áreas de interesse mútuo, como tecnologia de aceleradores de partículas, design de ímãs e estudo de materiais supercondutores.

Este acordo é significativo por várias razões. Primeiro, reconhece a contribuição científica e tecnológica do Brasil, destacando o CNPEM e o projeto SIRIUS, um avançado sincrotron de quarta geração. Segundo, abre caminho para projetos conjuntos que podem beneficiar ambos os lados, particularmente em campos relevantes para o estudo de viabilidade do Futuro Colisor Circular (FCC).

A colaboração entre o CERN e o Brasil, especialmente à luz do processo para o Brasil se tornar um Estado Membro Associado do CERN, promete fortalecer o papel do Brasil na ciência global e na diplomacia científica. Esta parceria não apenas beneficia a comunidade científica brasileira, mas também reforça a posição do Brasil como um participante ativo e influente no cenário científico internacional.

Diplomacia Científica e Política

À medida que avançamos, a diplomacia científica enfrenta um cenário complexo, desafiado tanto pelas inovações tecnológicas quanto pelas transformações geopolíticas. A expertise técnica, que é a pedra angular da diplomacia científica, continuará sendo essencial em muitas áreas da política externa. Contudo, a crescente interseção entre ciência, tecnologia e questões sociais exige uma abordagem mais sofisticada e integrada.

Inovações Tecnológicas e Governança

A biologia sintética, as tecnologias de edição genética, as moedas digitais como o bitcoin, e as aplicações de aprendizado de máquina e inteligência artificial estão remodelando não apenas os campos da agricultura, comércio e controle populacional, mas também estão dando origem a novos modelos de governança, como o autoritarismo digital. Essas áreas, por sua natureza transversal e impacto profundo, requerem uma diplomacia científica ágil e adaptativa, capaz de abordar os desafios éticos, econômicos e sociais que surgem.

Construindo Coalizões Internacionais

Para além da necessidade de expertise técnica, a construção de coalizões internacionais demanda habilidades de comunicação e persuasão que transcendem o conhecimento científico. Convencer outras nações a cooperar requer argumentos convincentes que sejam compreendidos e valorizados por uma audiência diversificada. Isso implica em treinar cientistas e técnicos para comunicar sua expertise de maneira que motive a ação entre as partes interessadas, apelando para motivações políticas, econômicas e emocionais, sem comprometer a integridade dos dados e análises oferecidos.

A Integração de Especialistas nos Mecanismos de Governança

Para que líderes, formuladores de políticas e diplomatas compreendam efetivamente as questões fundamentadas em ciência e tecnologia, é crucial a integração contínua de especialistas nessas áreas nos mecanismos de governança. Com um número crescente de cientistas buscando cargos eletivos nos Estados Unidos e em outros lugares, há uma tendência de que essa integração se intensifique. Esse movimento rumo a uma governança informada pela ciência pode ser uma chave para abordar as complexidades do mundo moderno de forma eficaz.

Enfrentando o Nacionalismo e Fomentando a Colaboração

Em um momento em que o nacionalismo está em ascensão em várias partes do mundo, a promoção da colaboração internacional torna-se um desafio ainda maior, mas também mais essencial. A capacidade de unir países e culturas em torno de objetivos comuns, especialmente diante de desafios globais como as mudanças climáticas, pandemias e a segurança cibernética, é fundamental para o futuro da civilização humana.

A diplomacia científica, portanto, não é apenas um meio de facilitar o diálogo e a cooperação internacional, mas também um instrumento vital para garantir a sustentabilidade, a segurança e o bem-estar global no século XXI. À medida que enfrentamos desafios sem precedentes, a necessidade de uma abordagem holística e colaborativa para a diplomacia científica torna-se ainda mais clara, exigindo de nós uma reflexão profunda e ações concretas para preparar a sociedade global para o futuro.

Diplomacia Científica 2.0

A evolução da diplomacia científica para uma versão “2.0” representa um passo adiante na maneira como abordamos a colaboração internacional na ciência, especialmente no que se refere a enfrentar desafios sociais e globais. Essa nova abordagem destaca a importância de promover uma integração mais profunda de dados e metadados de diversas disciplinas, a fim de informar decisões políticas e priorizar áreas de pesquisa com impacto social significativo.

Um dos instrumentos críticos dessa nova fase é o observatório de inovação responsável, uma plataforma que reúne dados e metadados de várias disciplinas e os integra através de uma abordagem de dados vinculados em múltiplas camadas. O objetivo é compreender quais áreas de pesquisa devem receber prioridade, dependendo das demandas sociais locais ou dos desafios globais enfrentados pela humanidade e seu ambiente.

O Observatório Global da OMS sobre P&D em Saúde é frequentemente citado como um exemplo desse tipo de iniciativa. Desde 2013, esse observatório visa identificar prioridades de P&D em saúde com base nas necessidades de saúde pública, consolidando e analisando informações relevantes sobre as necessidades de P&D em saúde dos países em desenvolvimento. Esse observatório justifica-se pela disponibilidade de conhecimento contextual sobre a incidência de epidemias e doenças, orientando governos e patrocinadores na tomada de decisões sobre a alocação futura de recursos.

A diplomacia científica pode desempenhar um papel positivo na promoção de observatórios de inovação responsável, abraçando a agenda de desafios globais e patrocinando a adoção desses observatórios em vários países. Além disso, pode promover uma abordagem mais estruturada à colaboração científica internacional, superando iniciativas individuais e buscando uma cultura de pesquisa transdisciplinar e integradora.

Esses esforços visam promover o estabelecimento e o desenvolvimento de observatórios de inovação, reunindo acadêmicos e cientistas de diversas disciplinas para identificar prioridades de pesquisa com impacto social. Além disso, busca-se avançar no diálogo entre os criadores desse novo conhecimento e as partes interessadas locais para verificar se os resultados dos exercícios de pesquisa correspondem às prioridades identificadas.

Livros sobre Diplomacia Científica

Livros

  1. Science Diplomacy: New Day or False Dawn? de Vaughan C. Turekian e Norman P. Neureiter. Este livro fornece uma visão geral da diplomacia científica, explorando seu potencial como uma ponte entre a ciência e a política externa.
  2. Diplomacy for the 21st Century: Embedding a Culture of Science and Technology Throughout the Department of State de William J. Burns. Uma análise detalhada de como a ciência e a tecnologia podem ser integradas nas práticas diplomáticas contemporâneas.
  3. Science and Diplomacy: A New Dimension of International Relations” de Pierre-Bruno Ruffini. Este livro oferece insights sobre como a ciência se tornou parte integrante das relações internacionais e da diplomacia.
  4. Global Science and National Sovereignty: Studies in Historical Sociology of Science editado por Gavan McCormack e Yoshio Sugimoto. Uma coleção de estudos de caso que exploram a relação entre ciência global e soberania nacional.

Artigo

  1. Science Diplomacy: Antarctica, Science, and the Governance of International Spaces de Paul Arthur Berkman

Futuro da diplomacia científica

A diplomacia científica, hoje, emerge não apenas como uma área de interesse acadêmico e político, mas como uma urgência muitas vezes negligenciada no palco global. Em um mundo cada vez mais marcado por conflitos geopolíticos e disputas por supremacia tecnológica, a colaboração científica internacional e a diplomacia associada a ela assumem um papel crucial na promoção da paz, do desenvolvimento sustentável e da segurança coletiva.

Um exemplo palpável da importância da diplomacia científica pode ser observado na operação da Estação Espacial Internacional (ISS), um símbolo de cooperação pacífica no espaço. Apesar das tensões geopolíticas na Terra, a ISS permanece um projeto onde a ciência e a tecnologia servem como pontes para a cooperação entre países, incluindo os Estados Unidos e a Rússia. Contudo, os recentes conflitos terrestres levantaram questões sobre o futuro dessa colaboração, destacando a fragilidade da ciência como ferramenta de diplomacia em tempos de disputa.

Um dos desafios mais significativos que enfrentamos na implementação efetiva da diplomacia científica é garantir que os países em desenvolvimento tenham acesso às tecnologias necessárias para seu desenvolvimento sustentável. A disparidade tecnológica entre nações ricas e pobres não apenas perpetua a desigualdade global, mas também impede esforços coletivos para abordar questões transnacionais como a mudança climática. A diplomacia científica deve, portanto, incluir mecanismos para compartilhar conhecimento e inovação de maneira justa e equitativa, permitindo que todas as nações contribuam para e se beneficiem de soluções científicas e tecnológicas.

Scientia Potentia Est: Ciência como Poder

A máxima “Scientia Potentia Est” (Conhecimento é poder) é frequentemente invocada para destacar a influência e a autoridade que o conhecimento e a ciência conferem às nações e indivíduos. Historicamente, este poder muitas vezes foi moldado por hegemonias e impérios como um instrumento de controle, dominação e afirmação geopolítica. Contudo, no contexto contemporâneo da diplomacia científica, este princípio pode e deve ser reinterpretado e utilizado como uma força para a cooperação, equidade e desenvolvimento sustentável.

A ciência e a tecnologia, enquanto instrumentos de poder, têm o potencial não apenas de transformar sociedades para melhor — curando doenças, protegendo o meio ambiente, e elevando padrões de vida — mas também de acentuar desigualdades, exacerbando assimetrias entre nações e dentro delas. A diplomacia científica surge como um campo crítico na redefinição desse poder: de uma ferramenta de hegemonia para um meio de colaboração e solidariedade internacional.

No coração da diplomacia científica moderna, há o imperativo de transformar ‘scientia’ de um instrumento de dominação em um de cooperação. Isso implica em compartilhar conhecimento e tecnologia de forma justa e equitativa, assegurando que todos os países, independentemente de seu poder econômico ou político, tenham acesso às ferramentas de que necessitam para enfrentar desafios comuns, desde mudanças climáticas até pandemias.

Guilherme Bueno
Guilherme Bueno
esri.net.br

Sou analista de Relações Internacionais. Escolhi Relações Internacionais como minha profissão e sou diretor da ESRI e editor da Revista Relações Exteriores. Ministro cursos, realizo consultoria e negócios internacionais. Gosto de escrever e já publiquei algumas centenas de posts e análises.

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